A arquitetura Transformer, de 2017, reorganizou o campo e tornou possível a IA generativa que hoje redige, resume e traduz. O encontro abre o instrumento por dentro, mostra o que ele faz bem e onde falha, e fixa a regra de verificação e os cuidados que o Direito exige.
A inteligência artificial generativa é a tecnologia capaz de criar conteúdo novo [texto, imagem, áudio, código] a partir de uma instrução em linguagem comum. O exemplo mais conhecido é o ChatGPT, lançado em novembro de 2022. Convém separar dois tipos de IA. A IA tradicional classifica ou prevê: diz se um e-mail é spam, aprova ou nega um crédito, reconhece um rosto. A IA generativa produz algo: redige um parágrafo, resume um documento, sugere uma minuta. Na diferença prática, a tradicional escolhe entre opções dadas, e a generativa escreve a opção.
Treino. O modelo aprende lendo uma quantidade enorme de textos. Não decora frases: aprende padrões, quais palavras costumam aparecer juntas, em que ordem e em que contexto. Previsão. Depois de treinado, recebe a instrução [o prompt] e responde prevendo a próxima palavra mais provável, uma de cada vez, com cada palavra realimentando a previsão da seguinte. O resultado parece raciocínio, mas a base é estatística. Sentido como posição. Para comparar significados, o modelo transforma cada palavra ou trecho em uma lista de números, o embedding. Significados próximos recebem posições próximas.
Vaswani e coautores [NeurIPS, 2017] introduziram a arquitetura Transformer e o mecanismo de atenção, que pondera, para cada palavra, quais outras do contexto mais importam. A arquitetura abandonou a recorrência das redes anteriores e passou a processar a sequência em paralelo, com ganho de escala. Toda a família GPT [Generative Pre-trained Transformer] deriva daí, de GPT-1 a GPT-3, até o ChatGPT popularizar a tecnologia.
| Noção | O que é |
|---|---|
| Token | pedaço de texto [palavra, parte de palavra ou sinal]; o texto é fragmentado em tokens antes do cálculo. |
| Predição | o modelo prevê o token seguinte mais provável, um de cada vez. |
| Janela de contexto | a quantidade de texto que o modelo considera de uma só vez. |
| Temperatura | controla a aleatoriedade: baixa deixa o texto previsível; alta, criativo e arriscado. |
| Uso | Como serve, e a cautela |
|---|---|
| Pesquisa e leitura | resume decisões longas, extrai a tese central, compara entendimentos. Conferir a fonte primária antes de usar. |
| Redação de minutas | gera um primeiro rascunho de petição, parecer, voto ou despacho. A responsabilidade pela versão final permanece humana. |
| Resumo e organização | condensa autos volumosos, monta linha do tempo, organiza pontos controvertidos. |
| Classificação e triagem | separa peças por assunto, identifica prazos e prioriza demandas. |
| Tradução de linguagem | reescreve texto técnico em linguagem acessível, ou converte pedido informal em linguagem jurídica. |
| RAG jurídico | ancora a resposta em base confiável, com citação, e reduz a alucinação. |
| Atendimento e orientação | responde dúvidas frequentes e orienta sobre procedimentos, sem substituir aconselhamento jurídico. |
| Limite | Risco no Direito |
|---|---|
| Alucinação | afirmações plausíveis, porém falsas, incluindo artigos de lei, súmulas e acórdãos inexistentes. A fluência engana. |
| Viés | reprodução dos vieses dos dados de treino; risco direto para a igualdade em triagens, perfis e recomendações. |
| Ausência de fonte | o modelo, sozinho, não informa de onde tirou a resposta; sem rastreabilidade, a verificação fica com quem usa. |
A geração aumentada por recuperação [Retrieval-Augmented Generation] busca trechos de uma base confiável antes de gerar a resposta, e gera a resposta ancorada nos trechos recuperados, com citação. O jurista passa a trabalhar com fonte rastreável, e não com a memória estatística do modelo.
Componentes típicos: fragmentação hierárquica do texto, embeddings, base vetorial, recuperação por similaridade e geração condicionada às fontes. A base fica sob controle do usuário, com atenção ao sigilo e à Lei Geral de Proteção de Dados.
O prompt é a instrução em linguagem natural que orienta a resposta. A boa prática combina clareza, contexto, exemplos, iteração, estrutura e avaliação crítica do resultado. Em síntese operacional: